domingo, 10 de julho de 2011

tarde metropolitana

Da janela do meu quarto a vista nunca foi das melhores. Ruas tortas, lascas de casas mal pintadas, chão batido, verde cá, marrom acolá e uma extrema sensação de cárcere. Dou meia-volta pela casa e procuro outro buraco na parede que aos meus olhos expresse a verdade contida nas coisas – pequenas e grandes -, mas o que enxergo é um mini mercado fechado, ônibus lotados  e toda a movimentação da classe proletária. Largo meu suspiro, solto meu boa tarde para os compatriotas e volto a estudar.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Cão Terapeuta

O Grito do humanóide

Flor em meio ao trigo. Rocha maleável, nem tão sólida, nem tão inteira. Gostaria de evocar minhas forças e falar, simples assim. Nada muito rebuscado, na verdade, algo que se faça ouvir. Gritar talvez. Muito menos. Nada disso. Passiva. Ouve calada e remoe por dentro algo que não caiu bem. Tive vontade de levantar daquela poltrona e ir embora. Minha raiva  tinha origem na contradição. Conheço-me o suficiente para discordar. Não levei quase nada a sério. Só liguei o automático e ouvi. Olho no olho. Nessas horas o orgulho aflora.  Dentro do carro questionei-me: “não vemos o mundo como ele é, mas sim como somos” então, o que é o mundo? E, pior do que isto: como seria possível ver o mundo senão a partir do que somos? Seria  preciso “não existir” – de algum modo. E isto não é justamente anular a distância entre o observador e o objeto, tornando-os uma única coisa “existindo”? Tenho minha parcela de pessoalidade em cada palavra. Quanto se pode iludir com elas!

terça-feira, 5 de julho de 2011

natureza seca, homens sedentos!



Fotografia do Norberto Valério.
Surpreendi-me com a espontaneidade nos gestos, na forma, na verdade. A luta contra algum frio que se fazia sentir apesar do sol. De olhos fechamos em sinal de clamor, boca aberta em sinal de fome. É a fome que sustenta a vida. Fome emocional. Fome psicológica. Fome de viver. Fomes que não tem ligação com a sustentação da vida.

ela, ele e o tempo

Das ist sowas von wahr was der Till singt...


 Ela tomou consciência da morte. Do que implica o processo de apodrecimento da carne, degeneração de células. Até a radiação de uma quimioterapia. Do ir-se embora e nunca mais voltar. Dizer adeus. A vida e suas limitações. Seres humanos com suas limitações. Pode pouco. Estagnada. Anos escorrem feito pó. E o que não se perdoa morre consigo. Até o que não muda. Memória volta à tona. Ele a incentivou a escrever. A pensar. A contestar. A ter mais coragem. A ser ela mesma. A ser nobre. A ter caráter. A ser independente. A brigar quando necessário, a levantar a cabeça depois da queda. A ser um pouco melancólica, a falar palavrão, a gostar de gatos, gostar de móveis antigos e de valorizar fotos amarelas de família. Ensinou-a o que é o medo, o ódio, a raiva e até o perdão. Amou e odiou diversas vezes. Precisa assumir seus erros e ser honesta. Desse pai herdou um gênio forte, uma personalidade um pouco rebelde, uma enxaqueca terrível, a indignação com muitas coisas, o desprezo por outras, certa inflexibilidade, a preferência pela madrugada, uma avó de coração que não cabe no mundo, a transparência no contentamento e no descontentamento, ouvir bandas alemãs e tocar gaita de boca. A paixão pela natureza e o ar livre, a nostalgia de Três Coroas nos verões, a mania de comer em pé, dormir com o rádio ligado e milhões de outras tantas coisas que não lhe vêem à cabeça nesse momento. Voltar não dá, não há nada lá atrás para lhe fazer querer. Esperamos, esperamos, esperamos... Precisamos nos perder no caminho. É necessário. Mas agora é hora de nos encontrarmos. Desesperados. Por onde andamos nesses anos?