terça-feira, 5 de julho de 2011

ela, ele e o tempo

Das ist sowas von wahr was der Till singt...


 Ela tomou consciência da morte. Do que implica o processo de apodrecimento da carne, degeneração de células. Até a radiação de uma quimioterapia. Do ir-se embora e nunca mais voltar. Dizer adeus. A vida e suas limitações. Seres humanos com suas limitações. Pode pouco. Estagnada. Anos escorrem feito pó. E o que não se perdoa morre consigo. Até o que não muda. Memória volta à tona. Ele a incentivou a escrever. A pensar. A contestar. A ter mais coragem. A ser ela mesma. A ser nobre. A ter caráter. A ser independente. A brigar quando necessário, a levantar a cabeça depois da queda. A ser um pouco melancólica, a falar palavrão, a gostar de gatos, gostar de móveis antigos e de valorizar fotos amarelas de família. Ensinou-a o que é o medo, o ódio, a raiva e até o perdão. Amou e odiou diversas vezes. Precisa assumir seus erros e ser honesta. Desse pai herdou um gênio forte, uma personalidade um pouco rebelde, uma enxaqueca terrível, a indignação com muitas coisas, o desprezo por outras, certa inflexibilidade, a preferência pela madrugada, uma avó de coração que não cabe no mundo, a transparência no contentamento e no descontentamento, ouvir bandas alemãs e tocar gaita de boca. A paixão pela natureza e o ar livre, a nostalgia de Três Coroas nos verões, a mania de comer em pé, dormir com o rádio ligado e milhões de outras tantas coisas que não lhe vêem à cabeça nesse momento. Voltar não dá, não há nada lá atrás para lhe fazer querer. Esperamos, esperamos, esperamos... Precisamos nos perder no caminho. É necessário. Mas agora é hora de nos encontrarmos. Desesperados. Por onde andamos nesses anos?